A música coral de Goiás em cena: performance, composição e representatividade cultural
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Universidade Federal de Goiás
Resumo
Esta pesquisa doutoral tem por objetivo investigar como as características intrínsecas de
Goiás influenciam as composições da literatura coral goiana e contribuem para sua
constituição e representatividade cultural. O percurso investigativo estrutura-se a partir da
problemática central: Como a música coral goiana, em sua dimensão composicional e
enquanto prática no campo das performances culturais, expressa e constitui a
representatividade cultural do Estado de Goiás? Ancorada no paradigma qualitativo e nas
perspectivas teóricas de Bortoni-Ricardo (2008), a análise é conduzida de forma analíticodescritiva e sistemática (na revisão e no levantamento do repertório), culminando na aplicação
da abordagem da semiótica tensiva de Claude Zilberberg (2011). Na revisão teórica (centrada
em performances culturais, música e canto coral), Richard Schechner (2003) e outros autores
definem a performance como um ato relacional e contextual, influenciado por tradições e
convenções culturais. Ela é vista como um meio de comunicar, revelar identidades e
transformar sujeitos por meio de experiências sensoriais e do significado emergente. No
campo da música, Nicholas Cook (2006) argumenta que a performance musical deve ser
abordada como um fenômeno social, em crítica à musicologia tradicional. A análise
sistemática revela a escassez de estudos sobre a literatura coral de Goiás, embora os existentes
destaquem a importância do canto coral para a identidade cultural e histórica do estado. Essa
literatura, composta por música clássica, folclórica e popular, abrange elementos e tradições
que permeiam o imaginário goiano. A presença da música coral é atestada ao longo da
história de Goiás, desde os seus primórdios em Vila Boa (antiga capital) até Goiânia. As
vozes harmoniosas ecoaram em missas, escolas e outras instituições da época. Um marco
significativo é o registro do Padre Manoel de Andrade Verneck, vigário de Vila Boa e regente
coral em 1757, como precursor da prática musical profissional goiana, segundo a
historiografia (Mendonça, 1981). A literatura coral goiana, ao exemplificar essa interseção
entre performance e identidade cultural, incorpora elementos locais que ressoam com a
identidade regional. Seu repertório, por meio de arranjos e composições originais, expressa
traços identitários de Goiás, refletindo a memória coletiva e as tradições culturais. Em última
instância, no capítulo 7, examina a peça Coral nº 2, de Estércio Marquez Cunha, buscando
evidenciar como a música coral contemporânea de Goiás ressoa suas tradições históricas e
afetivas. A investigação aborda a partitura como um texto poético-musical vivo, em que as
dimensões sonoras e simbólicas se entrelaçam. Após um exame panorâmico, a análise
aprofunda-se em três níveis complementares da semiótica tensiva (Zilberberg, 2011), com
apoio em Tatit (2019) e Lemos (2022): (1) direções tensivas, (2) modulações aspectuais e (3)
operações perceptíveis. O percurso sensível da obra revela uma tensividade marcada pela
lentidão, pelo silêncio e pela densidade harmônica, elementos que evocam paisagens afetivas,
ancestralidade e memória coletiva, atualizando o imaginário cultural goiano. Ao destacar a
articulação entre o plano de expressão e o plano de conteúdo, este estudo: (a) demonstra como
a Coral nº 2 configura um “cântico da terra”; (b) ressalta que a tradição coral de Goiás se
reafirma como acontecimento sensível e se consolida como expressão artística de relevância
patrimonial, legitimando-a como bem cultural de natureza imaterial; (c) e faz ecoar a música
coral de Goiás como canto-linguagem do Cerrado.